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Sobreaviso Médico: O Que É, Quanto Vale e O Que a Lei Diz em 2026

Regys Mendes Plantão · Carreira 7 min
médico em sobreaviso com celular aguardando chamado hospitalar

Você já ficou em casa esperando o celular tocar, sabendo que, se ligar, você vai ter que ir para o hospital? Esse período tem nome, tem definição legal e, dependendo do seu vínculo, tem valor monetário também.

Chama-se sobreaviso — e é um dos temas mais mal compreendidos na carreira médica. Muita gente confunde com plantão, aceita sem questionar ou, pior, cobre sem receber nada por isso. Neste post, vou explicar o que a CLT diz, o que o TST decidiu e o que você precisa negociar antes de topar qualquer regime de sobreaviso.


O que é sobreaviso, tecnicamente

O conceito vem do artigo 244, §2º da CLT — norma criada originalmente para ferroviários, mas que os tribunais trabalhistas passaram a aplicar por analogia a outras categorias, incluindo médicos com vínculo celetista.

A definição legal é direta: “Considera-se de sobreaviso o empregado efetivo, que permanecer em sua própria casa, aguardando a qualquer momento o chamado para o serviço.”1

Três elementos aparecem nessa definição:

  1. Aguardar o chamado — você está de prontidão, não trabalhando ativamente
  2. Em casa ou em local de descanso — não está dentro do hospital
  3. A qualquer momento — sem horário definido, o chamado pode vir a qualquer hora

O mesmo artigo estabelece que cada escala de sobreaviso pode ter no máximo 24 horas, e que as horas de sobreaviso são remuneradas à razão de 1/3 (um terço) do salário normal1. Ou seja, se você recebe R$ 120 a hora no plantão, a hora de sobreaviso vale R$ 40 pela CLT.


A virada do celular: o que a Súmula 428 do TST muda

Com a popularização dos smartphones, surgiu uma dúvida prática: se o hospital te manda um WhatsApp e você precisa responder, isso é sobreaviso?

O Tribunal Superior do Trabalho respondeu com a Súmula 428, atualizada em 2012. O entendimento tem dois pontos centrais:

  • Inciso I: O simples uso de instrumentos telemáticos (celular, pager, aplicativo) fornecidos pela empresa, por si só, não caracteriza sobreaviso.
  • Inciso II: Considera-se em sobreaviso o empregado que, à distância e submetido a controle patronal por instrumentos telemáticos, permanecer em regime de plantão ou equivalente, aguardando o chamado durante o período de descanso.2

Na prática, o que o TST quer dizer: ter celular corporativo não é suficiente. O que define sobreaviso é a restrição real à sua liberdade de ir e vir. Se o hospital exige que você esteja disponível para comparecer em 30 minutos, que você informe onde está ou que não se afaste de determinada região — isso configura restrição, logo configura sobreaviso.

Se você só precisa estar acessível para tirar uma dúvida por telefone, sem obrigação de comparecer fisicamente, o entendimento jurisprudencial tende a ser diferente. Mas atenção: isso precisa estar claro no contrato, porque na dúvida, a interpretação trabalhista favorece o trabalhador.


Sobreaviso versus plantão: a diferença que importa

Confundir os dois é o erro mais comum. Veja a distinção objetiva:

SituaçãoComo conta
Plantão presencial no hospitalHora cheia de trabalho
Sobreaviso com restrição de locomoção1/3 da hora normal (CLT)
Disponibilidade informal sem restriçãoNão conta como horas, em regra
Atendimento remoto por teleconsulta formalizadaDepende do contrato

Essa distinção é importante porque afeta banco de horas, horas extras e limites de jornada. O médico com vínculo CLT tem limite legal de jornada — e as horas de sobreaviso entram na conta. Se a soma ultrapassar os limites convencionados, o hospital deve pagar adicional.

Para entender melhor como a jornada afeta sua remuneração total, veja o post sobre plantão fixo versus avulso e o que paga mais.


O que o CFM diz sobre jornada e disponibilidade

O Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018) não regulamenta o valor do sobreaviso — isso é matéria trabalhista — mas deixa claro que o médico tem o direito de recusar trabalho em condições que comprometam sua saúde ou a segurança do paciente3.

Isso tem implicação direta para o sobreaviso: se você já está em plantão presencial e o hospital exige sobreaviso imediatamente após, sem intervalo adequado, há conflito com os preceitos éticos de preservação das condições de trabalho. O CFM não é o órgão que vai resolver essa disputa trabalhista, mas o entendimento dele reforça que jornadas exaustivas, mesmo em sobreaviso, não são neutras do ponto de vista deontológico.

Converse com seu sindicato médico ou com o CREMESP (ou CRM do seu estado) se você sentir que as condições de sobreaviso estão afetando sua capacidade de exercer a medicina com segurança.


Quanto o mercado paga por sobreaviso médico

A CLT define o piso legal de 1/3 da hora normal para vínculos celetistas. Mas o que os hospitais praticam na negociação real?

Não existe uma tabela nacional obrigatória para sobreaviso médico fora do que a CLT e as convenções coletivas estabelecem. O que se observa na prática — especialmente em UPAs, hospitais privados de médio porte e maternidades — é que o mercado tende a remunerar sobreaviso entre 20% e 30% do valor da hora-plantão, quando há pagamento separado. Em alguns casos, o valor é incorporado à remuneração fixa do contrato sem discriminação — o que é problemático porque você não sabe se está sendo compensado adequadamente.

A regra prática: se não está no contrato como item separado, negocie antes de aceitar. Depois que você já cobre sobreaviso regularmente, fica muito mais difícil inserir remuneração retroativa.

Veja também o post sobre o piso da FENAM em 2026 e o que o plantonista deve receber por hora, que traz referências de valores de mercado para você usar como base na negociação.


Médico PJ: o sobreaviso é um ponto cego

Se você presta serviço como pessoa jurídica — modelo cada vez mais comum nos hospitais privados — a lógica muda completamente. PJ não tem vínculo CLT, logo o artigo 244 e a Súmula 428 do TST não se aplicam diretamente.

Sobreaviso para médico PJ só existe se estiver explicitamente previsto no contrato de prestação de serviços. Sem cláusula específica, não há obrigação legal de remunerar esse período.

Isso cria uma situação frequente: médicos PJ que ficam “de plantão informal” sem receber nada por isso, achando que é parte do serviço contratado. Não é — ou não precisa ser. É um serviço adicional que pode (e deve) ser precificado.

Antes de assinar qualquer contrato PJ que envolva disponibilidade fora do horário combinado, pergunte diretamente: “Como o sobreaviso está previsto no contrato e como é remunerado?” A resposta vai revelar muito sobre como o hospital trata seus médicos.


O que negociar antes de aceitar sobreaviso

Independentemente do vínculo, há cinco pontos que precisam estar definidos antes de você assumir qualquer regime de sobreaviso:

1. Definição do período. Quantas horas por semana ou por mês? Qual o horário? Há limite máximo por escala?

2. Critério de acionamento. Quando o hospital pode te chamar? Só para emergências cirúrgicas? Para qualquer intercorrência? O protocolo precisa ser claro.

3. Tempo de resposta exigido. Se o hospital exige presença em até 30 minutos, isso restringe sua locomoção. Se exige em até 2 horas, o cenário é diferente. Esse prazo impacta diretamente o enquadramento legal.

4. Remuneração separada. O sobreaviso precisa aparecer como item distinto no contrato ou na folha de pagamento. Valor incorporado invisível é red flag.

5. O que acontece se você não puder comparecer. Há substituto? Você é responsabilizado? Esse ponto protege você de situações em que sobreaviso vira obrigação não contratualizada.

Para mais estratégias de negociação com hospitais, veja o post completo sobre como negociar plantão extra com o hospital.


Resumo prático

Sobreaviso não é plantão. Não é hora normal. É uma categoria jurídica específica com regras próprias que a maioria dos médicos desconhece — e que os hospitais, convenientemente, muitas vezes não explicam.

Se você tem vínculo CLT e o hospital restringe sua locomoção durante o sobreaviso, você tem direito a remuneração de 1/3 da hora normal, com base no artigo 244 §2º da CLT e na Súmula 428 do TST. Se você é PJ, negocie a cláusula antes de assinar — porque depois é tarde.

O mercado paga quem sabe o que vale. E você não consegue negociar o que não conhece.


Footnotes

  1. Decreto-Lei nº 5.452/1943 (CLT), art. 244, §2º. Disponível em: planalto.gov.br. Acesso em: 10 set. 2026. ↩ ↩2

  2. Tribunal Superior do Trabalho. Súmula 428 — Sobreaviso. Redação alterada na sessão do Tribunal Pleno de 14/05/2012, Res. 185/2012. Disponível em: tst.jus.br. Acesso em: 10 set. 2026. ↩

  3. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica — Resolução CFM 2.217/2018. Disponível em: portal.cfm.org.br. Acesso em: 10 set. 2026. ↩

Fontes citadas

Perguntas frequentes

Sobreaviso médico conta como horas extras?+

Conforme a Súmula 428 do TST, sobreaviso com restrição à liberdade de locomoção conta como horas trabalhadas. Se o hospital exige que você fique disponível no raio X ou dentro da unidade, é horas. Se só precisa atender chamado e pode sair, depende do contrato.

Quanto paga sobreaviso médico?+

Não há tabela federal obrigatória. O mercado pratica entre 20% e 30% do valor da hora-plantão por hora de sobreaviso. Hospitais maiores tendem a pagar mais — mas isso precisa estar no contrato ou na convenção coletiva da categoria.

Médico PJ tem direito a sobreaviso?+

PJ não tem vínculo CLT, então sobreaviso precisa estar explícito no contrato de prestação de serviço. Sem cláusula contratual, não há obrigação legal de pagar. É ponto de negociação antes de assinar.

Posso recusar sobreaviso não remunerado?+

Depende do vínculo. CLT: sobreaviso sem pagamento é ilegal se houver restrição de locomoção. PJ: depende do contrato. Sempre melhor ter cláusula explícita antes de iniciar a relação com o hospital.

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